a última paixão
hoje tive uma longa conversa
com a minha morte. vinha
vestida de azul. sorria.
falámos vagamente de
qualquer coisa
como quem não quer ir
directamente ao assunto. depois
deixei a mão esquerda repousar-lhe
sobre a coxa direita olhei-a
e disse-lhe de caras: qual
é a tua ó minha? ficou
à procura de palavras folheou
as sobrancelhas e partiu a
virar as costas (ela é sempre
assim: muito sem ruídos
discretíssima).
a primeira vez que
nos galámos vi logo
esta tem de ser chegará
o nosso dia ainda
te hei-d’apalpar as tetinhas
aprofundaremos o diálogo
em definitivo desde a primeira troca d’olhos
em ti adivinho uma paciente e
segura paixão.
até lá semeio meus amores
fugazes e transitórios um pouco
por todo e qualquer lado nervosamente
te aguardo ó derradeira.
